Análise do Centro de Votuporanga pelo Elieser


24 horas

Aqui vamos nós em mais um laboratório experimental.

O que será que acontece nesta esquina ao longo das 24 horas de um dia qualquer.

Data: 22 de outubro de 2007 - 2ª feira

Registro das 13:00 hs

Para começar, podemos perceber que a rua é aparentemente tranquila. Consegui chegar aqui com relativa tranquilidade. 

Registro das 14:00 hs

O movimento aumenta. Sai de casa com 15 minutos de antecedência e tive que dar a volta pela Rua Sergipe para poder chegar aqui no horário. Mesmo assim, comecei a fotografar às 14:05 hs. Uma coisa que normalmente passa despercebido é a quantidade de pessoas que ficam sentadas nos bancos da praça, conversando ou vendo a vida passar.

Registro das 15:00 hs

Embora as fotos não demonstrem isso, o trânsito foi simplesmente terrível. Da Rua Tietê até a Rua Alagoas, simplesmente congestionado. Parte por causa do próprio fluxo dos veículos, parte pela falta de sincronismo nos semáforos e parte pela "folga" dos motoristas que param no meio da rua para conversar, carregar ou descarregar material ou pessoas ou simplesmente para paquerar. Quando a gente não está com pressa, isto passa despercebido, pois nos integramos no ritmo, mas quando queremos acelerar o nosso passo, aí fica realmente enervante. Sai de casa com 20 minutos de antecedência e quase que não consigo chegar no horário.

Observem o homem de boné. Ele já estava aqui há uma hora atrás.

Registro das 16:00 hs

O trânsito melhorou. Cheguei com 5 minutos de antecedência. E o homem do boné continua lá. Trocam os interlocutores, mas ele fica para registrar o ponto. Temos um senhor curioso, me observando e ansioso por saber o que estou fazendo ali. É interessante, como as fotos não demonstram a intensidade do fluxo do trânsito.

Registro das 17:00 hs

O trânsito aumenta um pouco de intensidade, embora as fotos não consigam testemunhar tal fato. O homem do boné continua firme e forte. O senhor curioso desistiu de me olhar e deve estar vendo outras coisas mais interessantes. O único vestígio que demonstra um pouco o movimento dos veículos é a quantidade de carros estacionados. Com exceção do primeiro registro, nós nunca encontramos vagas disponíveis nesta região.

Registro das 18:00 hs

A turma do bate-papo foi embora. Que pena, eu já estava me simpatizando com o senhor do boné. Haja assunto. A cidade começa a mudar e o tipo de pessoas também. Surgem os primeiros estudantes. O trânsito também fica mais calmo.

Registro das 19:00 hs

Esse horário de verão engana. São 19 horas e ainda está claro. A rua está mais calma, mas ainda temos picos de movimento. É difícil a fotografia registrar isso. Também não temos mais assistentes sentados no banco. O dia está acabando.

Registro das 20:00 hs

Finalmente a noite chegou. O trânsito volta a ficar intenso, há um aumento no fluxo de pessoas no supermercado em frente e diversos estudantes circulam pelo local. Alguns estão com expressões de que irão "enforcar" as aulas. O estacionamento está todo tomado.

Registro das 21:00 hs

O trânsito novamente acalma. As pessoas ficam mais raras, mas ainda há movimento consistente.

Registro das 22:00 hs

Agora a cidade se prepara para dormir. O supermercado está fechado. As pessoas passam com mais pressa, sem olhar para os lados. Já não chamo tanta atenção com a minha câmera. Aliás, agora sou eu que fico olhando para os lados, para analisar a segurança. O trânsito está bastante calmo. Na foto do meio, fui surpreendido por formigas. Mantive a mesma, para garantir a autenticidade deste dia.

Registro das 23:00 hs

A cidade começa a ficar deserta. Ainda temos movimento de veículos e de eventuais pedestres. O sorveteiro ainda está otimista.

Registro das 24:00 hs

Meia noite. A hora da verdade. Tudo se acalma. Embora o movimento tenha caído bastante, mas ainda se escuta o ruído urbano em vários pontos próximos. Na praça, alguns hóspedes de bancos conversam em voz alta, talvez aquecidos por algum aguardente.

Data: 23 de outubro de 2007 - 3ª feira

Registro das 01:00 hs

Um novo dia começando. Os hóspedes estão silenciosos e possivelmente viajando nas terras do Mundo de Morfeu. O fluxo de trânsito, praticamente cessa e somente a polícia é que passa devagar, curiosa, sobre a minha presença ali.

Registro das 02:00 hs

Silêncio. A cidade sonolenta se aquieta como um imenso "monstro" que se acomoda. Ainda existem alguns ruídos aqui e ali. A novidade é uma pequena garoa que molhou a rua e deixou a foto mais bonita e eu, preocupado, por não ter trazido o guarda-chuva.

A cidade finalmente dorme e eu vou também, porque não sou de ferro. Não pensei que iria ficar tão cansado.

Registro das 07:00 hs

Que susto! A cidade acordou antes de mim. Achei que iria chegar aqui e encontrar o local ainda deserto e o vejo formigando de atividade. Embora ainda hajam vagas no estacionamento, o trânsito já está bastante intenso.

Registro das 08:00 hs

Que interessante. O trânsito deu uma acalmada. O movimento de pedestres prepondera. Um dos senhores que estava sentado no banco na tarde de ontem, limpa o seu "point" com uma vassoura improvisada. Eu acho que ele considera o local como seu, pois não usa o uniforme da prefeitura para garis. Fiquei observando este senhor, porque após a limpeza, ele se juntou a um grupo de outros senhores defronte a igreja e começaram a debater algum assunto importante...talvez o destino da CPMF...quem sabe?

Registro das 09:00 hs

Trânsito calmo. A única novidade é a Patrulha da Polícia Militar. O estacionamento está quase livre. Ainda fico pensando sobre o que aconteceu às 7 horas da manhã. Sempre achei que o movimento fosse crescente, e não foi isso que aconteceu.

Registro das 10:00 hs

Tudo começa a ficar igual. Essas fotos podem muito bem se confundir com as de ontem. Pessoas sentadas, pessoas conversando, pessoas passando, comércio aberto, estacionamento, trânsito, etc. É a rotina do centro da cidade.

Registro das 11:00 hs

Como eu disse, tudo igual. O trânsito aumenta e mais pessoas chegam para sentar. Tenho a impressão de que são os donos anônimos deste lugar. Eles mesmo varrem e cuidam do espaço.

Registro das 12:00 hs

Meio dia. Hora de almoçar. Mas na rua, nada parece indicar tal momento. Tudo flui incessantemente, insensível aos momentos de cada um... somos todos glóbulos desta imensa corrente sanguínea da cidade, chamada trânsito.

 



Categoria: Arquitetura e Urbanismo
Escrito por Elieser às 17h32
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Panorâmica da Rua Goiás com a Rua Amazonas

Vejamos um outro modo de registrar o local.

22 de Outubro de 2007 -2ª feira

14:00 horas

Tive a idéia de fazer esta montagem ao preparar as fotos das 24 horas da minha esquina. Pretendo dar uma idéia de movimento oscilante de quem chega pela Rua Goiás, de quem vem pela Rua Amazonas e por onde todos desaparecem seguindo a Rua Amazonas.

15:00 horas

Percebe-se claramente a sub-utilização da Rua Goiás como área de carga e descarga de material. É conflitante, pois neste mesmo trecho temos uma sorveteria bastante caprichada em sua montagem, além de um consultório odontológico que lembra a minha infância. Foi nessa ante-sala que ficava desesperado aguardando a minha vez, enquanto ouvia a broca de baixa rotação uivando e os gemidos da pobre alma que ficava à mercê deste instrumento...

16:00 horas

17:00 horas

18:00 horas

 19:00 horas

 

20:00 horas

Chega a noite e ponto focal é o Supermercado da esquina. Vira um formigueiro humano.

21:00 horas

A cidade está calma e um dos últimos locais abertos é o Supermercado.

 

22:00 horas

Finalmente ele fechou. Agora só resta um quiosque que vende sorvete e churros ao lado do Terminal Bancário. A impressão que tenho é que o seu proprietário é bastante otimista, pois o movimento é muito fraco e estamos em uma segunda-feira.

23:00 horas

Fico observando o quiosque e torcendo para ele fechar. Assim eu teria uma desculpa para encerrar a minha pesquisa. Mas... não...eles permanecem...

De vez em quando, alguem para...de vez em quando passam alguns carros ou pedestres...

 

24:00 horas

Meia noite. A hora do lobisomem. Difícel não pensar nisso. A cidade se aquieta... e o quiosque ainda pretende faturar...

23 de Outubro de 2007 - 3ª feira

01:00 hora

Finalmente ele fechou. Agora somos somente eu e o centro. O risco vermelho é uma motocicleta que estragou esse momento particular.

02:00 horas

Caiu uma garoa e enfeitou o local. Chega a ser poético...

Queria registrar a passagem da viatura da Polícia Militar, desconfiada da minha presença ali...mas o fotômetro da minha câmera tem vontade própria...eles passaram...

07:00 horas

A cidade despertou e quem vinha pela Rua Goiás...continua vindo... e quem vinha pela Rua Amazonas ... continua vindo... e todos seguem pela Rua Amazonas...

08:00 horas

Carga e descarga...

09:00 horas

10:00 horas

11:00 horas

12:00 horas

Missão cumprida!

Agora é olhar para todas essas fotos e ver o invisível. Aquilo que passa despercebido no dia a dia e no cotidiano. Muita coisa já foi vista e percebida ao longo deste trabalho, mas agora, com ele formando um corpo, acredito que novas inferências irão surgir.

Entre as coisas que apareceram, vale a pena citar alguns: um senhor de idade incerta que trabalha como engraxate e é mudo (interessante vê-lo como se relaciona com os clientes), uma dupla de músicas bolivianos que tocam músicas que nos levam a relaxar e sonhar e aproveitam para vender CDs, um trailer do SEBRAE oferecendo serviços gratuitos à comunidade empreendedora e palestras em outro local (isso nos sugere que falta um espaço para palestras no centro), um comércio de VIAGRA genérico que garante funcionar em menos de meia hora e para justificar tal oferta, contatos para programas... não posso citar aqui para não "queimar" minhas fontes...mas quem procurar por ali...vai achar com certeza...

Existem ainda alguns mendigos abusados, que tentam cercar alguns transeuntes, falam até bem e a roupa embora suja, transparece um certo nível social, e que resmungam em alto e bom som quando são ignorados. Um formigueiro que atrapalhou a minha foto, diversos ângulos que ficam simplesmente lindos no por do sol e por aí se vai...

O local fervilha com uma vida própria. O farmacêutico da esquina da Rua Goiás com a Rua Amazonas, bastante interessado no meu trabalho, citou o caos que é o trânsito no local, particularmente no sábado e pior ainda em dias de chuva. O espaço para estacionamento defronte à farmácia não é respeitado e muito menos a faixa de pedestre. Enfim...não faltam dados...

... e as soluções?



Categoria: Arquitetura e Urbanismo
Escrito por Elieser às 17h26
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Shopping Center. Uma vantagem ou desvantagem?

Temos um dura crítica em relação aos Shopping Centers.

O de que eles deslocam todo o sentido do funcionamento de uma cidade para uma edificação isolada e fortificada, onde as pessoas podem consumir, passear e trabalhar com uma nova sensação de segurança.

É uma nova versão dos antigos castelos em que o povo acorria sempre que estivesse na iminência de uma invasão estrangeira. Hoje o inimigo é invisível, está infiltrado na violência urbana, sem uniformes, e a população corre em pânico para os condomínios fortificados para morar e para os shoppings em busca de produtos, serviços e lazer.

Será que dá para mudar isso?

Um fenômeno cultural da Pós-modernidade no urbano, os Shoppings Centers são ícones da Era da Globalização: em todos os Shoppings do mundo se comem os mesmo hamburgers, se vestem as mesmas roupas, se assistem os mesmos filmes e se respiram o mesmo ar purificado, controlado e refrigerado.

Inicialmente surgidos nos Estados Unidos entre as décadas de 60 e 70, chegam ao Brasil na década de 80 e afloram nos anos seguintes como modelos de desenvolvimento econômico de várias cidades brasileiras.

Aos moldes dos glamurosos parques e praças do período Barroco, os shoppings centers são lugares do esplendor aonde as pessoas vão para ver e serem vistas, para desfilarem com suas melhores roupas como em uma missa dominical, e logicamente aqui no caso, para também consumirem.

Típicos de nossa sociedade do espetáculo e do consumo, os shoppings como outros modelos deste urbano Pós-moderno (os museus, os fast-foods, os parques temáticos...) conformam os lugares de atração das cidades contemporâneas; fenômenos que atualmente, não só se restringem às grandes cidades dos países desenvolvidos, mas que também exercem grande influência urbanística em países e cidades da periferia mundial (incluindo-se aí, pobres, excluídos, socialistas...).

Fenômenos de uma nova urbanidade, ou ainda, os meios mais adequados de promovê-la, trazem a reboque um novo significado aos lugares da cidade. O significado do Capital, do consumo, do poder da imagem sobre a realidade: novos valores que se sobrepõem à história e às tradições, mesmo quando se utilizam destas para compor suas fachadas, seus motivos alegóricos ou qualquer citação. Conformam-se como lugares do espetáculo, pela sua presença e contribuição imagética a cidade, glamurizada e exacerbada em verdadeiros containers de cultura consumista; novos lugares que compactuam deste ideal da representação de ambientes corretamente produzidos para o consumo, descolados de uma realidade externa, tanto física, quanto imagética, se comportando como lugares de atração desta nova urbanidade.

Votuporanga, mais cedo ou mais tarde não se furtará em querer ser grande ou mesmo de participar do movimento de Marketing urbano que aflige cidades das mais variadas escalas em todo o mundo. Nestas últimas décadas, grandes cidades como Berlim, Barcelona, Paris, Bilbao (esta última, a mais badalada atualmente), entre outras tantas, passaram por grandes transformações urbanas em suas áreas centrais, utilizando a arquitetura e o urbanismo como poderosas ferramentas de marketing pessoal atreladas à nomes de importantes arquitetos do star system da arquitetura. Centros históricos ganham novos prédios e novo desenho urbano, novos usos atraem novos empreendimentos e capitais econômicos, dando novos ares às áreas antes esquecidas ou degradadas pelo crescimento desordenado.

Não podemos deixar de considerar Votuporanga como uma cidade provinciana e que fascinada com a chegada de um eventual mega-empreendimento de um shopping, possa se encantar e deixar criar ilhas de atração consumista e de lazer para a periferia, esvaziando o centro da cidade. Isso já aconteceu em diversas outras cidades e é duramente criticado como um dos fatores que prejudicam a sustentabilidade de uma cidade.

 

Por isso, ao invés de ir na contra-mão da história e ser contrário à instalação de shopping centers em Votuporanga, porque não unir o útil ao valioso. Por que não pensarmos em criar um imenso shopping bem no centro da cidade, cumprindo a herança comercial legada por cada esquina deste espaço.

Inicialmente entendo que este Centro deva passar por transformações urbanas, mas não de "revitalizações", pois o termo nos remete a um Centro que conceitualmente estaria morto ou degradado e que precisasse ser reavivado.

Este não é o caso de Votuporanga.

Se dispusermos um pouco de nosso tempo passeando pelas principais ruas desta região, perceberemos que na verdade ela ainda está muito viva e ativa, com uma grande concentração de atividades comerciais, de serviços, pessoas trabalhando, comprando, entre outras coisas.

A questão é que, como instalarmos um empreendimento deste porte, sem alterar significativamente a vida urbana que já existe neste local. Este local que tem vida própria durante as 24 horas do dia, merece uma cautela na requalificação dos espaços que existem nele. Entendemos que este espaço é vivo e dinâmico, que possui necessidades, experiências, história e cultura próprias. Uma reurbanização poderia dar novos usos a prédios antigos, construir outros novos sobre os que não possuíssem valor histórico para o patrimônio da cidade ou mesmo uso adequado.

No entanto o maior desafio seria construir algo que respeitasse o corpo deste centro tal e qual como ele chegou até os nossos dias, acrescentando novas funções em uma urbanização ousada baseada em um novo projeto que apontasse para um novo centro, convivendo harmoniosamente o novo com o histórico e o tradicional.

Como fazer isso?



Categoria: Arquitetura e Urbanismo
Escrito por Elieser às 22h13
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