Análise do Centro de Votuporanga pelo Elieser


GRANDE PRETENSÃO

Pesquisando sites que falassem sobre Kem Koolhaas, acabei tropeçando neste projeto da Prefeitura de Paris, para urbanizar uma região tradicional do centro da cidade. Com as devidas proporções, penso que algo deveria ser pensado para Votuporanga, para que mesmo daqui uns 100 anos, este projeto ainda seria inédito. Será possível?

O texto foi retirado do site "Architecture - Um blogger sobre Arquitetura e Urbanismo no Brasil", disponível em: http://www.architecture.blogger.com.br/2005_02_01_archive.html, Acesso em: 09 de novembro de 2007.

O articulista tece uma série de críticas sobre o resultado atual do projeto, mas creio que algumas premissas podem e devem ser aproveitadas, integrando com os conceitos da análise do SESC Pompéia.

Vejamos o que foi traçado para Les Halles.

Project Les Halles


Les Halles. Quem já foi a Paris passou por ali. Com mais de mil anos de história, a região de Les Halles localizada na área central da cidade tem como tradição histórica o comércio. Desde o século XII os parisienses tem caracterizado a área como um imenso "bazar", o mercado central da cidade onde poderiam ser encontrados o "grosso" do comércio de alimentos, abate e comércio de carne, de têxteis, calçados... 

Com o crescimento da cidade e da população, a área tornou-se preocupação dos dirigentes locais devido aos problemas de higiene (animais eram abatidos no local para comercialização de carne), segurança e circulação. Em 1842, o prefeito Rambuteau designou a "Comissão Les Halles" para estudar a possibilidade de remoção ou melhor instalação do mercado. Lançou-se um concurso arquitetônico em 1848, e o vencedor arquiteto Victor Baltard propôs a continuação do mercado no local com a construção de 12 pavilhões cobertos de estrutura metálica e cobertura de vidro. Dez destes pavilhões foram construídos entre 1858 e 1870, sendo os dois restantes finalizados em 1936. 

Os problemas decorrentes do crescimento da cidade, e a persistência de antigos como a higiene levaram à transferência do mercado em 1969 para as regiões de La Villette e Rungis. Durante anos a área ficou vazia e foi apelidado pelos parisienses de Le trou des Halles "o buraco de Halles". Um novo concurso na década de 70 o transformou no que se conhece hoje como Fórum Les Halles, um grande shopping center subterrâneo de 5 pavimentos.

Abaixo deste shopping encontra-se uma das maiores estações subterrâneas de metrô e trem urbano do mundo, a Châtelet-les-Halles. Configura-se como um verdadeiro "entroncamento" da cidade de Paris e sua periferia por onde passam diariamente 800.000 pessoas por dia por abrigar 5 linhas de metrô, 3 linhas de RER, 14 linhas de ônibus (houve aumento de 17 % de passageiros entre 1999 e 2002). 

Quem já se atreveu a percorrer o local com certeza se perdeu e foi difícil chegar onde se quis. Embora existam placas informativas, a sensação de reconhecimento do espaço é difícil. Não se sabe onde está, não se sabe pra onde vai, ou pelo menos, leva tempo. O espaço foi construído apenas 30 anos atrás, mas é perceptível o envelhecimento precoce do edifício; a inadequação do projeto às necessidades atuais de uma metrópole de quase 10 milhões de habitantes; problemas com mobiliário urbano e sinalização; saturação da circulação de pedestres e total ausência de ligação do edifício com importantes monumentos e edifícios como a Eglise Eustache e Bourse du Commerce.

Os parisienses têm real pavor desta construção, que leva a assinatura típica de uma arquitetura da década de 70. Além disso, o local é considerado "perigoso" pois foi eleito como o ponto de encontro da "galera da periferia" da cidade de Paris. O local de encontro dos excluídos, num português atual. Todas as tribos estão por ali.

O novo concurso para a área teve 4 equipes pré-selecionadas e o público pôde opinar (apenas opinar) sobre os 4 projetos:
           - OMA/Rem Koolhaas,
           - Ateliers Jean Nouvel,
           - MVRDV/Winy Maas,
           - SEURA/David Mangin.

Em dezembro, o prefeito (sim, ele e uma comissão, não foi por voto) elegeu SEURA/David Mangin como vencedor.


Quando vi a exposição em outubro, o projeto que me pareceu mais informativo, interessante, e realizável foi este do SEURA mesmo. O projeto segue os seguintes conceitos: o restabelecimento da continuidade urbana dos pedestres; a reorganização do sítio de maneira a criar uma sinergia; o "Carreau" (o shopping e os acessos aos metrôs e trens) recebe um teto translúcido e um novo programa de atividades, comércio e equipamentos; e a reestruturação completa dos acessos aos trens RER (trens urbanos regionais).
 

 



TODOS propuseram possibilidades visuais entre os cinco pavimentos: por exemplo, estar no nível 1 e poder visualizar parte do nível 4; porque a sensação de não saber onde se está é terrível. Também foi unânime a ligação do "Carreau" com os importantes edifícios mencionados. Das outras 3 equipes posso apenas dizer:

MAAS/MVRDV. Embora eu tenha gostado da solução de "aberturas" entre os pavimentos e do suporte para as raízes das árvores...cabe lembrar que uma parte do piso proposto é de vidro e que em Paris chove quase todo dia...(mas ficou lindo, e daí?)

 

 

O Jean Nouvel precisa rever seus conceitos. Ele propõe para a cobertura do "Le Carreau" um terraço verde (plantas exóticas se não me engano) e piscina (ABERTA) como área de lazer pública. Eu sinceramente não entendi. Por favor me corrijam caso esteja errada, mas foi a única equipe a propor a ligação de trens tipo TGV ao local. E isso foi simpático.
 

 

 



O Koolhaas ficou no plano dos sonhos. Cada pirâmide corresponde a um equipamento/comércio/uso Me parece que não entrou pra ganhar, nem havia sido a intenção. Mais uma publicidade para seu escritório.

 

 

 

 



Escrito por Elieser às 18h43
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AÇÕES A REALIZAR

O site do SESC colocou citsações em cada uma das ações que suas unidades devem realizar, que fiocu irresistível transcrevê-la aqui, para que estas vertentes sejam mais atuantes nessa etapa do projeto.

 

Ações a realizar

BRINCAR
“A vida social reveste-se de formas supra-biológicas, que lhe conferem uma dignidade superior sob a forma de jogo, e é através deste último que a sociedade exprime sua interpretação da vida e do mundo. (...) A cultura surge sob a forma de jogo”
Johan Huizinga. Homo Ludens, 1971

CONTEMPLAR
“A observação artística pode atingir uma profundidade quase mística. Os objetos sobre os quais ela incide perdem o nome”
Paul Valéry, citado por Benjamin. O narrador, 1983.

CONVIVER
“Para obter qualquer verdade sobre mim, é necessário que eu considere o outro. O outro é indispensável à minha exitência tanto quanto, aliás, ao conhecimento que tenho de mim mesmo... Desse modo, descobrimos imediatamente um mundo a que chamaremos de intersubjetividade e é nesse mundo que o homem decidade o que lele é e o que são os outros”
Jean-Paul Sartre. O existencialismo é um humanismo., 1987.

CRIAR
“Tudo o que não invento é falso”
Manoel de Barros. Memórias Inventadas, 2003

DESVENDAR
“A descoberta consiste em ver o que todos viram e em pensar o que ninguém pensou”
Szent Gyorg, citado por Edgar Morin, na introdução do livro Raízes Errantes, 2004.

EDUCAR
“No fundo, o educador que respeita a leitura de mundo do educando, reconhece a historicidade do saber, o caráter histórico da curiosidade, desta forma, recusando a arrogância cientificista, assume a humildade crítica, própria da posição verdadeiramente científica”
Paulo Freire. Pedagogia da Autonomia, 1996.

EXPRESSAR
“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa
não sou alegre nem sou triste
sou poeta”
Cecília Meireles. Trecho da poesia: “Motivo” 100 anos de Poesia, 2001

INTERAGIR
“Está claro, o movimento social e cultural que o ciberespaço propaga, um movimento potente e cada vez mais vigoroso, não converge sobre um conteúdo particular, mas sobre uma forma de comunicação não midiática, interativa, comunitária, transversal, rizomática”
Pierre Lévy, Cibercultura, 1999.

PREVENIR
“Já premido por seu pulso
de inquebrantável vigor
não sou mais quem dantes era:
com volúpia dirigida,
saio a bailar com meu corpo."
Carlos Drummond de Andrade. Trecho do poema: “As contradições do corpo”. Corpo, 1985

REFLETIR
“Todo leitor que relê uma obra que ama sabe que as páginas amadas lhe dizem respeito”
Gaston Bachelard, Poética do Espaço, 2000

SENSIBILIZAR
“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...”
Alberto Caieiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Ficções do Interlúdio, 1980

TRANSFORMAR
“O espaço convida à ação, e antes da ação a imaginação trabalha.”
Gaston Bachelard, Poética do Espaço, 2000

VIAJAR
“Essa impressão de enormidade é bastante própria da América; sentímo-la em toda a parte, tanto nas cidades como no campo; senti-a perante a costa e os planaltos do Brasil central... donde provém o sentimento de estranheza?
(...) O que me envolve por todos os lados e me esmaga não é a diversidade inesgotável das coisas e dos seres, mas uma úmida e formidável entidade: o Novo Mundo”
Claude Lévy-Strauss. Tristes Trópicos, 1979

 



Categoria: Arquitetura e Urbanismo
Escrito por Elieser às 09h14
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Sesc Pompéia

Acessando o site do SESC-Arquitetura Viva pelo link http://www.sescsp.org.br/sesc/hotsites/arquitetura/site/unidade.asp?cd=87677, podemos constatar a abrangência da proposta da Arquiteta Lina Bo Bardi ao projetá-lo.

     Em outubro de 1986, ano em que foi inaugurada a parte nova do complexo, a revista Projeto dedicou 18 páginas ao Sesc Pompéia. Em texto publicado naquele número, o filósofo espanhol Eduardo Subirats Rüggeberg escreveu:

“Pareceram-me uma alegre fantasia arquitetônica essas pontes que unem os dois edifícios principais da Pompéia e servem para que os jovens, após os suores dos espaçosos ginásios que a grande torre abriga, regressem aos vestiários da torre pequena.

O conjunto escultórico dos dois gigantes e a última torre, cilíndrica e alta como uma chaminé [...] possuem uma dimensão carregadamente expressiva”.

É interessante observar que esse imenso shopping ao ar livre, foge à já clássica tendência de fortificação das edificações. Os hábitos dos transeuntes foram respeitados, as edificações históricas foram mantidas e o novo se integrou de maneira perfeita sem criar contraste ou comparações.

A própria sinalização visual cumpre o seu papel, sem "brigar" com o entorno, informando na medida necessária. As edificações antigas estão de tal forma integradas que parece terem sido construídas junto com o centro.

A multi-funcionalidade de suas instalações oferece um sem número de possibilidades para qualquer visitante. Para Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo, essa é uma das duas razões para que a unidade da Pompéia seja a de maior visibilidade. “A primeira é sua extensa programação cultural, com espetáculos, eventos e exposições de grande ressonância na vida da cidade e mesmo do país.

A outra é sua arquitetura, tanto pelo que representa em termos de memória industrial preservada, quanto pelas engenhosas soluções de restauro, reciclagem e novas intervenções feitas por Lina Bo Bardi”, afirma.
Internamente apresenta espaços para diversas atividades:
Área de Convivência
Bar/Café
Biblioteca
Deck
Exposição
Ginásio
Internet Livre
Oficina
Piscina
Restaurante
Rua Central
Sala de atividades corporais
Teatro

E o que é mais importante, para se tornar um organismo vivo, o visitante pode executar as seguintes ações:

Brincar
Contemplar
Conviver
Criar
Desvendar
Educar
Expressar
Interagir
Prevenir
Refletir
Sensibilizar
Transformar
Viajar

É sem dúvida um modelo a ser inspirado, ao projetar uma solução para esse centro de Votuporanga, pois tudo o que foi comentado na análise realizada anteriormente, aponta para um projeto integrado do mesmo calibre. E parafraseando o site do SESC-SP, será desta forma que criaremos um CENTRO VIVO, com uma também viva arquitetura.

E é este o grande desafio.



Categoria: Arquitetura e Urbanismo
Escrito por Elieser às 18h44
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